quarta-feira, 27 de abril de 2016

Riobaldo e Diadorim

"Quem me ensinou a apreciar essas as  belezas sem dono foi Diadorim." (p.26)

Imagem: http://compartimentosecretopara.blogspot.com.br/2010/06/o-romance-de-riobaldo-e-diadorim.html


A música Estado de poesia, do Chico César, de tão imagética que é, logo me remeteu ao Grande Sertão: Veredas, onde se vê, como num efeito catártico, os opostos integrados, amor que dói, arde, queima e mata, mas é bom, doce, acalma e cria, a mais perfeita manifestação de amor em forma de amizade dada entre Riobaldo e Diadorim, no constante desejo de se entranhar naqueles sertões e se encantar todo.

"Diadorim, duro, sério, tão bonito, no relume das brasas. Quase a gente não abria a boca; mas era um delém que me tirava  para ele - o irremediável extenso da vida. Por mim, não sei que tontura de vexame com ele calado eu a ele obedecendo quieto. Quase que sem menos era assim:  a gente chegava num lugar,  ele falava pra eu sentar, eu sentava.  Não gosto de ficar em pé. Então, depois, ele vinha sentava, sua vez. Sempre mediante mais longe. Eu não tinha coragem de mudar para mais perto. (p.29)

(Riobaldo) ao reencontrar o menino, não mais o abandonará, e será ele quem determinará dali em diante seus passos. (...) No segundo encontro, arrebatado pelo fascínio de Diadorim, vai aprender em sucessivas lições de quanta coragem se precisa para ser jagunço. Sendo Diadorim filho secreto de Joca Ramiro, chefe do bando, estabelece-se  entre os dois uma relação de amor e de morte, que se desenrola sob o signo de Deus e do Diabo. Nessa relação, a camaradagem viril se mistura a um desejo dos mais ambíguos, assim como o prazer da amizade entre ambos à guerra incessante em que estão empenhados. Disso resultará, por fim, a morte de Diadorim, da qual Riobaldo se sentirá culpado pelo resto de sua vida. Riobaldo demora um pouco para perceber que o que sente é amor por outro homem. Sua perturbação é enorme, e ele chega a pensar em suicídio. (GALVÃO, p.48)

"Diadorim e eu, nós dois. A gente dava passeios. Com assim, a gente se diferenciava dos outros -  porque jagunço não é muito de conversa continuada nem de amizades estreitas: a bem eles se misturam e desmisturam, de acaso,  mas cada um é feito por si." (p.28)


Referência: GALVÃO, Walnice Nogueira. Guimarães Rosa/ Walnice Nogueira Galvão. - São Paulo: Publifolha, 2000. - (Folha explica)

                   ROSA, João Guimarães, 1908-1967. Grande Sertão: Veredas/ João Guimarães Rosa. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006 (Biblioteca do Estudante). p. 7-31.

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