| Imagem: http://compartimentosecretopara.blogspot.com.br/2010/06/o-romance-de-riobaldo-e-diadorim.html |
A música Estado de poesia,
do Chico César, de tão imagética que é, logo me remeteu ao Grande Sertão:
Veredas, onde se vê, como num efeito catártico, os opostos integrados, amor que
dói, arde, queima e mata, mas é bom, doce, acalma e cria, a mais perfeita
manifestação de amor em forma de amizade dada entre Riobaldo e Diadorim, no
constante desejo de se entranhar naqueles sertões e se encantar todo.
"Diadorim, duro, sério,
tão bonito, no relume das brasas. Quase a gente não abria a boca; mas era um
delém que me tirava para ele - o
irremediável extenso da vida. Por mim, não sei que tontura de vexame com ele
calado eu a ele obedecendo quieto. Quase que sem menos era assim: a gente chegava num lugar, ele falava pra eu sentar, eu sentava. Não gosto de ficar em pé. Então, depois, ele
vinha sentava, sua vez. Sempre mediante mais longe. Eu não tinha coragem de
mudar para mais perto. (p.29)
(Riobaldo) ao reencontrar o
menino, não mais o abandonará, e será ele quem determinará dali em diante seus
passos. (...) No segundo encontro, arrebatado pelo fascínio de Diadorim, vai
aprender em sucessivas lições de quanta coragem se precisa para ser jagunço.
Sendo Diadorim filho secreto de Joca Ramiro, chefe do bando, estabelece-se entre os dois uma relação de amor e de morte,
que se desenrola sob o signo de Deus e do Diabo. Nessa relação, a camaradagem
viril se mistura a um desejo dos mais ambíguos, assim como o prazer da amizade
entre ambos à guerra incessante em que estão empenhados. Disso resultará, por
fim, a morte de Diadorim, da qual Riobaldo se sentirá culpado pelo resto de sua
vida. Riobaldo demora um pouco para perceber que o que sente é amor por outro
homem. Sua perturbação é enorme, e ele chega a pensar em suicídio. (GALVÃO,
p.48)
"Diadorim e eu, nós
dois. A gente dava passeios. Com assim, a gente se diferenciava dos outros
- porque jagunço não é muito de conversa
continuada nem de amizades estreitas: a bem eles se misturam e desmisturam, de
acaso, mas cada um é feito por si."
(p.28)
Referência: GALVÃO, Walnice
Nogueira. Guimarães Rosa/ Walnice Nogueira Galvão. - São Paulo: Publifolha,
2000. - (Folha explica)
ROSA, João Guimarães,
1908-1967. Grande Sertão: Veredas/ João Guimarães Rosa. - 1. ed. - Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 2006 (Biblioteca do Estudante). p. 7-31.
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