quinta-feira, 28 de abril de 2016

[ÁUDIO] Eu quase que nada sei...







ÁUDIO aqui --->  https://soundcloud.com/kajuuu/masdiscunfio



Referências: Imagem. Google imagens
                     MULATO, Zé; Cassiano. Serão ainda é Sertão. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=0fA4FsjOZvQ> Acesso em: 28 de Abril de 2016.



quarta-feira, 27 de abril de 2016

O romance de Riobaldo e Diadorim (Antônio Nóbrega)

Quando eu vi aqueles olhos,
Verdes como nenhum pasto,
Cortantes palhas de cana,
De lembrá-los não me gasto.
Desejei não fossem embora,
E deles nunca me afasto.
                                                                                    
Vivemos a desventura
De um mal de amor oculto,
Que cresceu dentro de nós
Como sombra, feito um vulto.
Que não conheceu afago,
Só guerra, fogo e insulto.

Na noite-grande-fatal,
O meu amor encantou-se.
Desnudo corpo inteiro
Desencantado mostrou-se.
E o que era um segredo,
Sem mais nada revelou-se.

Sob as roupas de jagunço,
Corpo de mulher eu via.
A Deus, já dada, sem vida,
O vau da minha alegria.
Diadorim, Diadorim...
Minha incontida sangria.






Eu sinto que a cadência dessa música traz um movimento para a história que está sendo contada e, pela ênfase dada a alguns versos, tão intensa e harmoniosamente, sua própria interpretação desvela quem é Diadorim. 

Só saberá, para sua pena e alívio, que se trata de uma mulher disfarçada de homem nas últimas páginas do livro, quando Diadorim mata e morre, num duelo a faca com Hermógenes - assassino de seu pai, Joca Ramiro. Seu corpo vai ser preparado para receber a mortalha, quando também o leitor fica sabendo seu verdadeiro sexo. (p.49)

Referências: GALVÃO, Walnice Nogueira. Guimarães Rosa/ Walnice Nogueira Galvão. - São Paulo: Publifolha, 2000. - (Folha explica)
                    NÓBREGA, Anônio. O romance de Riobaldo e Diadorim. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=uKIKWAucs_A> Acesso em: 27 de Abril de 2016.


Estado de Poesia (Chico César)

Para viver em estado de poesia
Me entranharia nestes sertões de você
Para deixar a vida que eu vivia
De cigania antes de te conhecer
De enganos livres que eu tinha porque queria
Por não saber que mais dia menos dia
Eu todo me encantaria pelo todo do seu ser
Pra misturar meia noite meio dia
E enfim saber que cantaria a cantoria
Que há tanto tempo queria a canção do bem querer
É belo vês o amor sem anestesia
Dói de bom, arde de doce, queima, acalma
Mata e cria
Chega tem vez que a pessoa que enamora
Se pega e chora do que ontem mesmo ria
Chega tem hora que ri de dentro pra fora
Não fica nem vai embora é o estado de poesia
Chega tem hora que ri de dentro pra fora
Não fica nem vai embora é o estado de poesia






Referência: CÉSAR, Chico. Estado de poesia. Disponível em: <https://www.youtube.com/watchv=bl_jM0Q448A> Acesso em: 27 de Abril de 2016.

Riobaldo e Diadorim

"Quem me ensinou a apreciar essas as  belezas sem dono foi Diadorim." (p.26)

Imagem: http://compartimentosecretopara.blogspot.com.br/2010/06/o-romance-de-riobaldo-e-diadorim.html


A música Estado de poesia, do Chico César, de tão imagética que é, logo me remeteu ao Grande Sertão: Veredas, onde se vê, como num efeito catártico, os opostos integrados, amor que dói, arde, queima e mata, mas é bom, doce, acalma e cria, a mais perfeita manifestação de amor em forma de amizade dada entre Riobaldo e Diadorim, no constante desejo de se entranhar naqueles sertões e se encantar todo.

"Diadorim, duro, sério, tão bonito, no relume das brasas. Quase a gente não abria a boca; mas era um delém que me tirava  para ele - o irremediável extenso da vida. Por mim, não sei que tontura de vexame com ele calado eu a ele obedecendo quieto. Quase que sem menos era assim:  a gente chegava num lugar,  ele falava pra eu sentar, eu sentava.  Não gosto de ficar em pé. Então, depois, ele vinha sentava, sua vez. Sempre mediante mais longe. Eu não tinha coragem de mudar para mais perto. (p.29)

(Riobaldo) ao reencontrar o menino, não mais o abandonará, e será ele quem determinará dali em diante seus passos. (...) No segundo encontro, arrebatado pelo fascínio de Diadorim, vai aprender em sucessivas lições de quanta coragem se precisa para ser jagunço. Sendo Diadorim filho secreto de Joca Ramiro, chefe do bando, estabelece-se  entre os dois uma relação de amor e de morte, que se desenrola sob o signo de Deus e do Diabo. Nessa relação, a camaradagem viril se mistura a um desejo dos mais ambíguos, assim como o prazer da amizade entre ambos à guerra incessante em que estão empenhados. Disso resultará, por fim, a morte de Diadorim, da qual Riobaldo se sentirá culpado pelo resto de sua vida. Riobaldo demora um pouco para perceber que o que sente é amor por outro homem. Sua perturbação é enorme, e ele chega a pensar em suicídio. (GALVÃO, p.48)

"Diadorim e eu, nós dois. A gente dava passeios. Com assim, a gente se diferenciava dos outros -  porque jagunço não é muito de conversa continuada nem de amizades estreitas: a bem eles se misturam e desmisturam, de acaso,  mas cada um é feito por si." (p.28)


Referência: GALVÃO, Walnice Nogueira. Guimarães Rosa/ Walnice Nogueira Galvão. - São Paulo: Publifolha, 2000. - (Folha explica)

                   ROSA, João Guimarães, 1908-1967. Grande Sertão: Veredas/ João Guimarães Rosa. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006 (Biblioteca do Estudante). p. 7-31.