segunda-feira, 16 de maio de 2016

[ÁUDIO/TRANSCRIÇÃO] Uma linguagem genuína x Grande Sertão: Veredas

ÁUDIO aqui ---> https://soundcloud.com/kajuuu/audio-vo-16-05

"I as coisa é rápida. Qual que é o termo que a senhora falou? Dois termo: rápido i discartávi. Mais que que isso significa? Discartávi que dura poco, rápido é isso que ce tá falano aí:  coisa mai rápido impossívi. Chega uma coisa com urgência pcê. É. É verdade. Pense bem pcê vê. Mais antigamente não era assim, não? De primeiro era tão difícil a vida qui se a pessoa sofresse do coração, pa i em São Paulo era tão difícil  que murria i num ia. A vó Lena chegô a í. A vó Lena teve esse sonho de chegá a í, chegá a curá, chegá a sará, chegá a vivê. Mas ela sonhô na... O povo gostava muito da vó Lena... Mas ela sonhô quando tava dormindo? Naaão.... ela foi internada em São Paulo, ficou um, uns 6 meses em São Paulo.  Morô em São Paulo.  Então ela tinha vontade de... Ela tinha vontade de sará... Húmmmm... Aí, como o povo muito gostava dela, tudu mundo ajudô ela, internaru ela em São Paulo. Ela fei uma cirurgia muituuu grrrandi  lá. Sarô tudo. Custô muito pa sará, mais sarô.  Ela tinha um enorme de um papo.  Cortaro o papo dela e ela sarô. E o que que era? Tireóidi? Tióoooidi. Tiódi daquela que crescia  papo. Ela ficou 6 meses em São Paulo. Diz que ela eles fôro prepará ela porque ela era idosa. Prepará o sangue dela pá podê fazê... Ela é irmã da... da vó? Não. A vó Lena  é otas gente. Ela é... veio de fora. Ela nem não era daqui, era do lado de Cambuí. Mas por que a senhora chamava ela de vó Lena? Porque ela é minha vó uai. Mas ela é... Ela nasceu prá lá notro lugar. Mas ela é mãe de quem? Porque ela é mãe do pai. Ela é da raça lá da do Cambuí, da... das posse, do Corgo dqueles lado pa lá.  Como chama o... seu pai? Zé Antônho de Souza porque é gente do Tuníco Luí tamém, porque é gente do meu sogro porque oo pai do meu pai é subrinho do Tuníco Luí. Tudo parente? Tudo parente. Ii, a vó Lena teve dois casamento. A vó Lena ficou viúva novinha, novinha. O marido dela morreu mais num sei do quê, ele tinha apilido de Antônho Mag(r)o. Magro? É. Meu avô. Porque era muito mag(r)o. E morreu novo. O fio dele, o tio João, que é irmão do meu pai tamém morreu novinho, morreu com uns trinta i pocos anos, dexô onze filho, morreu tudo, sobrô só trêi, um tá no Paraná, uma casô co, cu Dito que é meu primo ali nos Costas mai teve uma fia, ela teve uma fia com ele mai ela morreu novinha, novinha que nem ocê. A fia? A, a fia do tio João, casô com o Dito do tio Dino. Dito do tio Dino ficô viúvo, aí casô, daí ela morreu de repente ele tornou casá travêi. Ele... Três casa..., dois, num sei se é dois ou três casamento já, o Dito. Aí né, um foi embora pro Paraná, a tia levou ele pro Paraná, era um fio homi, e ficou uma casou com o Crídio Nego nos Costas. Tá la viva ainda. Crídio Nego? É, Crídio Nego. Eu fui lá visitá ela. Que nome! Ela é nem ocê, Cidinha, bem branquinha, baxinha, gordinha. É... ela... já criô os fio tudo já, ela criô uns cinco  co'ele. Ele sofreu tamém é, diabete, tem que sê diabete, há de sê o quê? Foi cortada a perna tamém, só uma. Deve ser.  Ele viveu a vida inteira sem perna. Deve ser então, diabete. Naquele tempo  antigo o povo não falava muito essas coisas. De que? Que era doença? Que ele cortou a perna novinho, novinho. Daí viveu o resto da vida com ela, quanto pôde com ela, num sei o que aconteceu com ele, ele morreu tamém. Aí largou a Cidinha viúva. Como ela morava num lugar diserto, sem recurso, que lá chamava Reberão das Pedra, agora ela mudou ali lá na casa dosavô, terra que foi dosavô dele na beradinha do rio, aonde a Dita morava tamém que é parente deze, que é gente da Rodrigada do Reberão, eles são gente da Rodrigada do Reberão. Reberão das Pedra. Lá onde eu vendi minhas terra que eu herdei. Era herança da vó Lena tamém. Parece que chamava Reberão dos Coquero. Ribeirão dos Coqueiros? É. E, eu vendi esse pedaço de terra lá."

A transcrição acima foi realizada a partir da gravação de uma conversa que tive com a minha avó, nascida e criada no interior de Minas Gerais. Durante a leitura do Grande Sertão: Veredas, pude identificar, além de palavras e expressões muito familiares à minha criação, naquela região, as quais me recordo ter ouvido quando criança e até hoje quando visito minha família, justamente o que demonstra o quão genuína é a maneira de falar da minha vó, como por exemplo: lançar (no sentido de vomitar), golinho (gole), eito (no sentido de quantidade), corgo (córrego),  "falhamos dois dias na fazenda Santa Catarina... " (no sentido de não ir, faltar dois dias), baque (barulho), etc., bem como  o modo de se referir às pessoas ou aos personagens "Joca Ramiro" (Guimarães Rosa) ou "Crídio Negro" (minha vó) e algumas características mencionadas por Bosi.

Grande Sertão: Veredas e as novelas de  Corpo de Baile incluem e revitalizam  recursos da expressão poética: células rítmicas, aliterações, onomatopéias, rimas internas, ousadias mórficas, elipses, cortes e deslocamentos de sintaxe, vocabulário insólito, arcaico, ou de todo, neológico, associações raras, metáforas, anáforas, metonímias, fusão de estilos, coralidade. (BOSI, 2013, p. 459)

"No mundo não tem Zé Bebelo nenhum... Existiu, mas não existe... Nem nunca existiu... Tem esse chefe nenhum... Tem criatura nem visagem nenhuma com essa parecença presente nem com esse nome... " (ROSA, 2006, p. 350)

Para Bosi (2013, p. 458),  [...] começou-se a entender de novo uma antiga verdade: que os conteúdos sociais e psicológicos  só entram  a fazer parte da obra  quando veiculados por um código de arte que lhes potencia a carga musical  e semântica. E, em consonância com todo o pensamento de hoje, que é um pensar a natureza  e as funções da linguagem, começou-se a ver, que a grande novidade do romance vinha de uma alteração profunda no modo de enfrentar a palavra.



Referência: BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 49 ed. São Paulo: Cultrix,
2013. p. 458-459.
                 ROSA, João Guimarães, 1908-1967. Grande Sertão: Veredas/ João Guimarães Rosa. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006 (Biblioteca do Estudante). p. 350.

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